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21 de agosto de 2014

Charnel Houses of Europe: a importância dos jogos para a história da humanidade

Esse post foi publicado no meu Facebook no final do ano passado, na minha última crise de prolixação. Ele foi o catalizador para eu reviver o blog, mencionado no post anterior, e eu pretendia postá-lo aqui logo em seguida. Mas, para variar, fui adiando até deixá-lo de lado - como eu faço com a maioria das coisas.

Recentemente, entretanto, resolvi dar continuidade à ideia original e reescrevê-lo aqui, acrescentando alguns detalhes que eu omiti no facebook para compactar. Quem quiser, fique à vontade para ler o post original no Facebook. É público!

Diversas vezes eu me pergunto se a profissão para qual eu estou me dedicando é a melhor opção pra mim. Imagino que todo mundo passe por isso, mas eu vejo isso sendo ainda mais forte com os estudantes da indústria criativa. Porque, como se não bastassem as nossas próprias dúvidas a respeito, sempre têm as outras pessoas - de desconhecidos indelicados a parentes preocupados - que vêm nos questionar exatamente as mesmas coisas que eventualmente assombram nossas cabeças. E, entre tantos questionamentos, volta e meia eu deito na minha cama e fico olhando para o teto, me perguntando (infinitas vezes) se é com isso mesmo que eu quero mexer e se vale a pena lutar tanto para seguir um caminho com um futuro tão incerto.

E aí, de vez em quando, o oposto aparece. Eu encontro algumas coisas que me fazem perceber o quão importante pode ser o meu trabalho. Mesmo que sejam "apenas joguinhos de computador".

Na época que eu escrevi o post no Facebook, eu tinha tido um dia desses. Depois de uma pequena conversa com o meu pai sobre o meu futuro, vim para o meu quarto assistir mais episódios do Extra Credits - um canal do Youtube sobre design de jogos, que roubara a minha madrugada nos dias anteriores. E aí encontrei esse vídeo aqui:



Para os que estiverem com preguiça de ver o vídeo, ou para os que não entendem inglês bem o suficiente para acompanhá-lo, o vídeo é sobre jogos superando os limites e regras impostos a eles, e trata principalmente sobre um livro-RPG de 1997, o Charnel Houses of Europe: The Shoah, que era um complemento da série Wraith: The Oblivion.

O Charnel Houses of Europe é um livro-jogo sobre o Holocausto. Vejam bem, esse assunto sempre foi delicado na indústria do Entretenimento. Foi só há (relativamente) pouco tempo que ele passou a ser retratado no cinema, e ainda não deixou de ser tabu na indústria de jogos. Não são muitos os jogos que retratam a Segunda Guerra Mundial, e os poucos que o fazem raramente entram na questão moral do período.

Então é bem impressionante achar um jogo de 1997 - tanto tempo atrás, para a indústria de jogos - que tenha feito isso, e sido lançado de qualquer forma.

Não vou entrar aqui em detalhes sobre o processo de concepção, criação e desenvolvimento do jogo, e os problemas que ele encontrou no caminho (que é o assunto do vídeo ali em cima), porque o objetivo desse post não é esse. Mas, para os curiosos, ele entra em bons detalhes.

O ponto aqui é o porquê desse jogo ter sido feito, para início de conversa.

Fazendo minhas as palavras do James, o roteirista do Extra Credits, eu poderia citar todos os motivos que tornam esse jogo importante. Não só para mim, não só para a indústria de jogos, mas para a humanidade. Mas a introdução do livro faz isso de uma maneira tão excepcionalmente bem, que eu prefiro deixar ela (uma versão um pouco mais completa do que a do vídeo) aqui para vocês lerem.

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(Traduzido por mim, em parceria com o Google Translate. Eu cortei uns pedaços para ficar mais direto ao ponto, mas o original - em inglês - pode ser lido em http://www.scribd.com/doc/100037194/Charnel-Houses-of-Europe-The-Shoah-1997)

"Recentemente, escrevi uma história sobre uma garota chamada Jennie, uma adolescente americana judaica contemporânea que foi forçada a enfrentar sua herança. Sua resposta, pelo menos inicialmente, era a sensação de que ela estava sendo imposta [à sua herança]. Ela não tinha nada a ver com o passado. Ela não estava envolvida.

Não é problema meu.

Todas essas coisas aconteceram há era atrás.

Por que revisitar a história antiga?

Esqueça isso de uma vez.

Esqueça isso? Esquecer o preconceito, a violência, os conflitos étnicos, o genocídio? Acho que não.

Então o que podemos fazer para garantir que os nossos filhos, e os seus filhos, e seus filhos se lembrem? Porque, se eles não se lembrarem, a tentativa fazer tudo de novo se repetirá, como tem sido nesta década na Ruanda.

Qual grupo será escolhido na próxima vez? Ruivos, talvez, ou loiros de olhos azuis?

Não é a "palavra-N" ou a "palavra-J", ou o que é politicamente correto e o que não é o que importa. É aprender que estamos nos afastando uns dos outros, sem levar em conta a dignidade humana e fazendo o possível para que o genocídio reapareça quando dizemos coisas como: "Tem um negro na porta," em vez de "Tem um homem na porta"(...)

Novamente eu pergunto, o que vamos fazer quanto a isso? O que podemos fazer quanto a isso?

A resposta é que devemos fazer o que pudermos, cada um em nossa própria maneira - em contos, em ensaios, na poesia e romances, frequentemente usando um realismo mágico para definir verdades dolorosas e feias demais para serem enfrentadas de qualquer outra forma.

(...)

Assim é com minhas entranhas criativas. Quando eu penso que eu escrevi o suficiente, descubro que eu preciso escrever mais. E enquanto eu escrevo, questiono se isso é de fato a resposta para educar os filhos dos nossos filhos. Os sobreviventes estão velhos. Seus filhos estão envelhecendo. Seus netos dizem que não é problema deles. Muitos deles não sabem sobre as suas raízes; ainda mais não se importam. O que, eu me pergunto, vai trabalhar para educar e informar os filhos do novo milênio? Será que eles vão ler 'A Escolha de Sofia', de William Styron, eles vão assistir 'O Jardim dos Finzi-Contini', de Vittorio de Sica, ou teremos que alimentá-los horrores de uma forma que torne mais palatável para eles?

Se nós dermos a eles um site sobre o Holocausto, ele vai servir como uma ferramenta de conscientização, ou vai simplesmente transformar o mal em um jogo?

Antes que Steven Spielberg fizesse 'A Lista de Schindler', me disseram diversas vezes que ninguém queria ouvir falar sobre o Holocausto. Isso não era verdade, era? O filme foi um sucesso de bilheteria, mesmo na Alemanha.

Por que isso me surpreende?

Porque eu estava em Berlim na década de 70, quando o governo insistiu que todas as crianças na escola deveriam assistir a um documentário sobre Hitler. As crianças pisaram e cantaram junto e se queixaram, perguntando o porquê de eles também não poderem marchar e cantar e ter 'esse tipo de diversão'. Eu estava lá na década de 80, quando grupos de crianças alemãs foram levados para visitar os locais dos campos de concentração e reclamaram o porquê de eles não poderem ver as máquinas em ação. Eu estava lá na década de 90, quando foi desenvolvido um jogo que convidava os participantes a desenvolver melhores formas de livrar o mundo de judeus.

No dia em que Richard Dansky me ligou para pedir para que eu escrevesse esta dissertação, (...) ouvi o que Richard disse ao telefone através das vozes de lamento do inconsciente coletivo dos mortos - da minha própria família e da família da humanidade.

Richard explicou com sinceridade o que era que ele estava tentando fazer.

Comecei a discutir, para dizer que o Holocausto não era um jogo, mas uma voz dentro da minha cabeça me impediu. 'Devemos ensiná-los através das ferramentas com as quais eles se sentem confortáveis', disse. Em um tempo distante, pensei, havia bardos e contadores de histórias que passavam adiante as palavras dos anciãos ao redor de fogueiras. Depois veio a era em que a caneta era mais poderosa que a espada.

Mas há poucos bardos agora, e quanto mais nos aproximamos do novo milênio, a caneta diminui no poder.

(...)

Lembrando, perguntei Richard a quem ele desejava que esta dissertação fosse direcionada.

'Isso é com você', disse ele. 'Por quem você gostaria mais de ser ouvida?'

'Por crianças', eu disse (...) 'Esse é o meu maior medo, que, quando a minha geração se for, não haverá mais ninguém que vá contar-lhes a verdadeira história do momento mais escuro da humanidade'."

BERLINER, Janet. Outubro de 1996. Extraído do livro "Charnel Houses of Europe: The Shoah". Traduzido do site: http://www.scribd.com/doc/100037194/Charnel-Houses-of-Europe-The-Shoah-1997. Acessado em Dezembro de 2013.

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Eu realmente espero que um dia eu consiga criar jogos tão importantes para a humanidade quanto esse, e fazer alguma diferença no mundo.

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